sexta-feira, 16 de maio de 2014

Corpus Delicti - Um Processo



"Eu me recuso a confiar em uma sociedade formada de seres humanos e que ainda assim se funda sobre o medo diante do humano. Eu me recuso a confiar em uma moral que é preguiçosa demais para encarar o paradoxo do bem e do mal e prefere se balizar em conceitos como 'funciona' ou 'não funciona'. Eu me recuso a confiar em um direito que deve seus sucessos ao controle absoluto do cidadão."


O futuro não é nada promissor. Seja na sociedade (aparentemente) sem falhas de Admirável Mundo Novo, na opressão claustrofóbica do Grande Irmão, em 1984 ou na ultraviolência (e resposta à altura) de Laranja Mecânica, a estrada à frente parece bem sombria.

Obras mais recentes seguem esta linha - com destaque para V de Vingança, de Alan Moore, cujo revolucionário com máscara de Fawkes se tornou um símbolo de indiscutível popularidade.

Acima de todo o pessimismo (ou sendo a causa deste), há o Estado controlador. A liberdade individual, a liberdade de pensamento é cerceada. O bem comum prevalece sobre a vontade, mesmo que grande parte da sociedade não reconheça este bem comum. Não há questionamento, pois questionar é ser subversivo - é, bem, estar contra o que é aceito como certo. Até mesmo pensar se houve escolha, antes de se aceitar, é estar contra o Estado. Contra o bem comum.

Aqui, a saúde atingiu um nível de perfeição indefectível. Cada cidadão é monitorado, de forma eficiente - devendo seguir uma rotina bem orientada de exercícios, alimentação correta, exames periódicos de saúde. Substâncias tóxicas, como álcool e nicotina são terminantemente proibidos. A condição física indefectível é guiada pelo Método, a que todos devem se submeter, agradecidamente. A protagonista, Mia sempre pensou desta maneira, até que a influência de seu irmão a leva a questionar a eficiência do Método. Moritz, seu irmão, é acusado de um crime que alega não ter cometido - mas, cuja culpa é provada, sem sombra de dúvidas. Esta é, afinal, a perfeição científica assegurada pelo Método.

O questionamento é lançado, porém, quando se indaga até que ponto um sistema pode ser infalível, quando criado por humanos - por definição, sujeitos à falhas?

No futuro imaginado por Juli, o Método, semelhante ao Grande Irmão de Orwell, é a representação do Estado. Onipresente. Intolerante. Inquestionável. Aqui, porém, há um rosto, um representante, uma espécie de apóstolo e defensor - um antagonista para Mia. Facilita, de certa maneira, ter um "alvo", alguém para direcionar o ódio (embora o Estado sem face, das obras citadas no princípio do texto, acabe sendo um tanto mais assustador). A maior rebeldia, o mais alto grito de liberdade, é bradar que "a vida é um presente que se pode recusar", nas palavras de Moritz.

Juli Zeh teve um acerto, com A Menina Sem Qualidades, e mantém a linha neste Corpus Delicti. A opressão criada pelo Método é sufocante, sem possibilidade de fuga, sem esperança. 

Há, porém, um último recurso. Quando seu próprio corpo não lhe pertence, tudo que resta é a alma.



Título Original: Corpus Delicti
Editora: Record
Autora: Juli Zeh
Ano: 2013
Páginas: 258

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