terça-feira, 15 de abril de 2014

Cash



"Amo a estrada. Adoro ser cigano. De certa forma, vivo para isso e isso me mantém vivo. Se não pudesse viajar pelo mundo e cantar minhas canções para pessoas que as querem ouvir, acho que poderia me sentar em frente de uma TV e começar a morrer. Neste momento, porém, esta estrada não vai mais longe. Já dei tudo o que tinha, mas ela quer mais, e para mim chega. Volto pra casa"


A impressão é de sentar para ouvir as memórias de um senhor gentil. Conforme a leitura avança, serena, percebe-se que a gentileza é entrecortada por alguns momentos um tanto sombrios, temperada por uma fúria incontrolável, abuso de drogas, promessas quebradas, sucesso, queda, corações partidos e um grande amor, de toda a vida. É a historia do Homem de Preto, contada pelo próprio. Ele teve um vida bem intensa.

Cash teve sua cota de problemas - a maioria criada por ele mesmo. Johnny destruía quartos de hotel, antes disso virar um clichê. Ele abusou da confiança das pessoas à sua volta, exigiu demais do amor que sentiam por ele, forçou o próprio corpo além dos limites e, bem, pagou o preço por isso. De forma honesta, ele confessa seus erros, sem buscar justificativas incoerentes. Sim, Johnny Cash se deixou conduzir pelas drogas. Ele se arrependeu disso.

Sua história é contada em episódios, pequenos "causos", indo e voltando no tempo. Lugares e pessoas tem sua devida importância - desde a infância nos campos de algodão, até as casas, na Jamaica ou com lendas sobre a guerra civil americana. A narrativa de como ele chegou a cada uma dessas casas, aliás, é interessantíssima - puro acaso ou obra do destino, depende do que você acredite.

Cash era um homem de fé. Católico praticante (talvez não tanto quanto ele próprio gostaria), fez o que pode para afirmar e difundir sua crença - o que gerava um enorme conflito anterior, em contraponto com seus vícios. Como definiu, havia o J.R., para os íntimos, havia Johnny, gentil, e havia Cash - que fazia coisas ruins. A fé provou-se mais forte, mas a luta prosseguiu, até o final.

Escrita alguns anos antes de sua morte, a biografia não acompanha seus últimos momentos, nem a perda de sua esposa e grande amor, June Carter. No fim das contas, mostra um homem que se enxergava com uma missão e que tentou cumpri-la - com um enorme amor pela música, para fortalece-lo. E, que por ser muito amado pelas pessoas à sua volta, foi capaz de seguir em frente e tentar andar na linha.


Título original: Cash - The Autobiography
Editora: Leya
Autor: Johnny Cash, Patrick Carr
Ano: 2013
Páginas: 266



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