sábado, 2 de março de 2013

Commando - A Autobiografia de Johnny Ramone





"Se os Ramones nunca tivessem existido e aparecessem agora, ainda iríamos pirar as pessoas. Ninguém tomou o lugar dos Ramones."


O título é Commando, mas também poderia ser "Guia: Como Ser Um Punk". Há, inclusive, uma passagem divertida, em que um garoto vê Johnny dirigindo um Cadillac e o interpela, dizendo que ele não poderia fazer aquilo, dirigir um carro caro não era uma atitude punk - ao que Johnny, gentilmente, retruca - respondendo que ele criou a atitude punk. Ele poderia dizer o que era ou não condizente com tal atitude. Então, se Johnny Ramone estava dirigindo um Cadillac, sim, isso era punk. O garoto sorriu, concordando.

Johnny nunca foi meu preferido, na minha banda preferida. Posso afirmar, em minha defesa, que muitos conhecidos tem a mesma reação. Isso é, em grande parte, culpa do próprio guitarrista. Ele construiu a sua imagem assim, ele passava exatamente a impressão do que esperavam dele:

"Mas, a despeito do sucesso, transmiti fúria e intensidade durante a minha carreira. Eu tinha uma imagem , e essa imagem era de raiva. Eu era o cara carrancudo, baixo-astral, e tentava me certificar de parecer assim quando era fotografado. Os Ramones eram o que eu era; portanto, eu era aquela pessoa que tanta gente viu no palco."

Não que sua fúria não fosse genuína, ela era. Johnny apenas soube se aproveitar, e usá-la à sua maneira. Sim, ele era o cara durão, Too Tough To Die, como diz uma das canções da banda, mas toda essa raiva foi conduzida com maestria, de forma inteligente. Mesmo antes de ler sua biografia, eu sabia de uma coisa: ele era necessário. Manteve a banda unida, manteve o som fiel ao que julgou que deveriam ser. Johnny era, basicamente, o chefe - e, esta, convenhamos, nunca é uma figura exatamente popular...

Sua autobiografia é, finalmente, a oportunidade de ouvir o que ele tem a dizer. Vejam bem, o guitarrista sempre teve a imagem de cara ruim - imagem que ele não se preocupava em reverter e, ao contrário, até cultivava. Johnny foi o canalha que roubou a namorada de Joey, seu companheiro de banda. Johnny era o intolerante que batia em Dee Dee, o baixista. Johnny expulsou Marky, o baterista, dos Ramones. Johnny tratava CJ como um empregado, lembrando que ele era apenas um músico contratado, para substituir Dee Dee. Há verdade nisso? Que tal saber sua versão?

É o que sua autobiografia faz. Ele não se preocupa em provar nada, apenas conta seu lado da história. Direto, sem rodeios, punk. E, sim, mudou minha visão. Organizado, centrado, Johnny manteve registros detalhados, que ajudam a tornar o livro um deleite para os fãs. Fotografias raras e inéditas, anotações, suas avaliações de cada álbum, dos shows importantes, tudo que qualquer interessado em história musical poderia querer saber, sobre uma das bandas mais influentes que já existiram - sim, isso não é exagero de fã.

Editada com grande esmero por John Cafiero - e, no Brasil, publicada em papel especial e bastante cuidado pela Editora Leya (a mesma das Crônicas de Gelo e Fogo), vale cada centavo, pela diversão que proporciona. Há, porém, um tom melancólico, em contraponto à fúria. Johnny já começou a escrever sabendo que seus dias estavam próximos do fim. Enfraquecido, pelo câncer que finalmente o venceu, o guitarrista queria mostrar que estava disposto a lutar até o fim. Ele não sabia perder.

Too Tough To Die.


Título Original: Commando: the autobiography of Johnny Ramone
Editora: Leya
Autor: Johnny Ramone (edição de John Cafiero, com Steve Miller e Henry Rollins)
Ano: 2012
Páginas: 176

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