terça-feira, 20 de novembro de 2012

Paralelo 42





"O jovem anda rápido, sozinho, em meio à multidão que se rarefaz nas ruas noturnas; pés cansados de caminhar horas; olhos ávidos pela curva cálida de um rosto, lampejos de olhos que correspondam, a posição de uma cabeça, um erguer de ombro, a maneira como as mãos se abrem e fecham; o sangue fervilha de desejo; a mente é uma colmeia de esperanças zumbindo e ferroando; músculos doem do trabalho, o trabalho com a picareta e a pá do consertador de estradas, a perícia do pescador com o gancho quando recolhe a escorregadia rede da amurada da traineira adernada, o movimento do braço do homem na ponte ao jogar o rebite em brasa, a mão do maquinista experiente no afogador, o uso que o agricultor faz de todo o seu corpo quando, tocando as mulas, desengancha o arado do sulco. O jovem caminha sozinho, varrendo a multidão com olhos ávidos, ouvidos ávidos e tensos para escutar, sozinho, só."


Foi com este primeiro parágrafo que John dos Passos me convenceu que valia embarcar na longa empreitada de sua trilogia USA, iniciada pelo Paralelo 42.

Cada cena é magistralmente descrita, sem exageros e sem pontos em branco, fornecendo o suficiente para a mente trabalhar... e, acreditem, isso acontece. A história é extremamente visual.

Acompanhando o crescimento do personagem Mac (Fainy, seu primeiro nome), pode-se compreender também o crescimento da nação que viria a se tornar uma das maiores potências mundiais. Desde a sua infância pobre, um white trash marginalizado, descendente de irlandeses e escoceses, quando Mac perde primeiro a mãe e depois o pai - e, vivendo com o tio, adquire alguns primeiros conceitos socialistas -, passando por seus dias de andarilho. Essa parte, aliás, lembra bastante On the Road, de Jack Kerouac.

Com o tempo, Mac se junta à causa operária, agindo quase na clandestinidade, na impressão de um jornal de apoio à greve. É nesse período que conhece Big Bill Haywood, líder da classe operária.

Novos personagens são apresentados, cada um retratando uma parte diferente na construção da nação que, desde o inicio do século, já almejava ser a maior potência do Seculo XX.

Janey e seu irmão Joe. Torna-se boa estenógrafa e secretária de confiança, passando a garantir seu próprio sustento. Seu irmão "cai no mundo" - a Marinha, a princípio, depois por conta própria.

J. Ward Moorehouse, escritor, alpinista social. Um publicitário perspicaz, revela ser um grande visionário. Demonstra grande valor, ao compreender o poder da propaganda, nos dias por vir. Moorehouse também revela possuir talento, para convencer os outros de sua visão, angariando aliados para contruir seu sonho.

É apresentada, também, Eleanor Stoddard, estudante de arte. Sócia fundadora de uma firma de decoração de interiores. Estabelecida em NY, após desfazer a sociedade, é responsável por decorar a casa de Moorehouse.

O crescimento dos personagens acompanha o crescimento dos Estados Unidos, uma terra que se apresenta como repleta de oportunidades e liberdade de escolha - ainda que se precise combater por cada uma delas.

As histórias são contadas em paralelo, a princípio, até que surgem eventos em comum. Enquanto isso, a sombra da I Guerra se torna uma ameaça cada vez maior, na Europa. Costurando a trama, trechos de jornais, canções, biografias de figuras importantes... John dos Passos cria uma ambientação repleta de detalhes, um pano de fundo excepcional, para a grande história que se propõe a narrar. Paralelo 42 é tão intenso quanto longo. Quando, em alguns trechos, parece que a história vai "se arrastar", surge algum novo detalhe, um novo gancho, que desperta o interesse.

Quase uma obra de reportagem, é o retrato detalhado e fascinante de um momento fundamental, na construção da história de um país que viria a se tornar uma das mais nações do século XX. Trata-se, ainda assim, apenas do começo do que John dos Passos planejou contar.



Título original: The 42nd parallel
Editora: Benvirá
Autor: John dos Passos
Ano: 1930
Páginas: 512

Comente usando o seu perfil no Facebook!

Nenhum comentário:

Postar um comentário