sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Amsterdam




Ah, as nuances da amizade... E, como ela pode passar, facilmente, para uma inimizade sem limites.

Amsterdam trata, principalmente, destas nuances. Clive e Vernon compartilham uma grande amizade, além de terem amado a mesma mulher, no passado - em momentos diferentes, que fique claro. É justamente no enterro desta mulher, Molly, que começamos a acompanha-los. Outros ex-amantes de Molly também estão no funeral - Julian Garmony, chanceler, bem cotado para Primeiro Ministro, e George, marido de Molly, que a acompanhou no fim.

Clive é um compositor de renome, mas com um ou outro problema de criatividade. Vernon é um jornalista sem destaque, encarregado de salvar da falência o jornal do qual é editor-chefe. Garmony é um hipócrita, defendendo uma moral que ele mesmo não segue e, finalmente, George, o marido, é um personagem ambíguo. Ele sabe que os ex-amantes de Molly o consideram um fraco, alguém que não a merecia, por não estar à altura da mulher excepcional que ela era.

Girando em torno de Clive e Vernon, a história de Ian McEwan demonstra que nenhum dos dois é um mocinho. Nem totalmente inescrupuloso. Eles apenas estão dispostos a fazer certos sacrifícios, para alcançar seus objetivos - e, ocasionalmente, este sacrifício é a ética. Ok, falando a verdade, são tão humanos quanto qualquer um de nós. Você pode odiar um ou outro, em determinado momento, mas não pode negar que suas atitudes tem um motivo. Ainda assim, são amigos de longa data, com uma confiança mútua forte o suficiente para sustentar uma espécie de pacto de morte: um deve dar cabo do outro, no caso de não pode responder mais, por suas ações - uma "morte em vida", como a que Molly sofreu.

Quando a amizade dos dois é posta em xeque, eles mostram como o acordo pode ser traiçoeiro. Cada um à sua maneira, buscam justificativas para os próprios atos, por mais sórdidos que sejam. Mais do que uma justificativa à sociedade, que poderia interpretar as decisões tomadas como produto de homens inescrupulosos, Clive e Vernon buscam justificativas para eles próprios, para apaziguar suas próprias consequências.

Sem rotular seus personagens, simplesmente conduzindo cada um por uma espiral sem retorno, Ian McEwan apresenta uma história bem interessante, ligeira e forte, em que os fins servem de justificativa para os meios. Ou, pelo menos, é assim que cada personagem vê as coisas.


Título original: Amsterdam
Editora: Companhia das Letras
Autor: Ian McEwan
Ano: 1998
Páginas: 184

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