sábado, 24 de março de 2012

Mais Estranho Que A Ficção



"Neste verão, um jovem me puxou para um canto numa livraria e disse que adorava o que eu tinha escrito em Clube da luta sobre os garçons emporcalharem a comida. Pediu que eu autografasse um livro e disse que trabalhava num restaurante cinco estrelas onde 'batizavam' os pratos das celebridades o tempo todo."


É um clichê mas, olhando de perto, ninguém é normal. As pessoas são esquisitas. E, Chuck Palahniuk consegue ser esquisito numa escala à parte. Por que? Talvez seja o olhar cínico sobre o mundo à sua volta, sua forma de captar cada ação, cada pessoa - o que, numa estranha contradição, faz com que o autor pareça bem normalzinho, até.

Palahniuk se tornou rapidamente um dos meus autores favoritos (podem confirmar aqui, mas tenham cuidado). Seu humor negro, as situações absurdas que retrata, seus "ataques" velados à sociedade, realmente atingem como um soco no estômago - a exemplo da propaganda utilizada para seu famoso Clube da luta. Assim, o que esperar deste Mais Estranho que a Ficção, sua primeira coletânea de não-ficção? A orelha do livro (eu já disse que não gosto de ler essa parte antes, mas sem problema em ler depois) resume assim: "o autor reúne textos, crônicas e artigos escritos ao longo da carreira e permite entrar em seu mundo, conhecer parte de seu processo criativo, de suas lembranças e, sobretudo, de seu olhar aguçado sobre o ser humano". Ok, pode ser por aí... e, em alguns momentos, entrar no mundo de Chuck Palahniuk pode ser bem perturbador.

Situações praticamente inacreditáveis, como o festival erótico ou a corrida de demolição que abrem a coletânea, ou o homem que planeja construir um foguete no quintal de casa - são todos muito, muito estranhos - e são reais. Os artigos com Juliette Lewis e Marilyn Manson são fascinantes, mostrando figuras do showbiz bem normais, em sua esquisitice. Chegam a ser adoráveis, carismáticos.

Chuck realmente mostra algo de seu processo criativo, sua forma de observar, catalogar e, algum dia, construir. Deixa evidente que as tragédias com seu pai e seu avô o afetaram. Comenta sobre autores de que gosta, sobre um corte de cabelo mal sucedido, sobre conhecer Brad Pitt e usar isso como moeda de troca.

O menor ensaio do livro foi, para mim, o mais perturbador. Macaco pensa, macaco faz (do qual extraí o trecho lá do começo) relata situações em que as pessoas são influenciadas pela ficção, para ações reais. Isso é perigoso. Muitos acreditavam que clubes da luta existiam de verdade e, então, passaram a surgir. Atos de transgressão, por pura e simples transgressão, passaram a ser cometidos, ferindo pessoas. Vejam se este trecho não é perturbador: "(...) toda vez que vemos que alguma coisa é possível, fazemos acontecer. Tornamos inevitável. Até Stephen King escrever sobre alunos fracassados que matam seus colegas, não existiam matanças em escolas. Mas será que Carrie e Rage tornaram isso inevitável?". Alguns, não conseguem diferenciar o que é real. Ou, como Palahniuk encerra o ensaio, por enquanto, só fingimos que não somos nosso próprio pior inimigo.      



Título Original: Stranger than ficcion
Editora: Rocco
Autor: Chuck Palahniuk
Ano: 2004
Páginas: 272

Comente usando o seu perfil no Facebook!

Nenhum comentário:

Postar um comentário