terça-feira, 20 de setembro de 2011

Memória de minhas putas tristes



O sentimento inicial, devo admitir, foi de antipatia pelo protagonista. É o caminho mais fácil de se seguir, após conhecer o homem que, ao completar seus noventa anos, resolve se dar de presente uma noite com uma virgem. Realizada a negociação e conhecida a moça, ainda uma menina, o sentimento de antipatia só aumenta.

O desafio de Gabriel Garcia Márquez, então, é mudar este sentimento - construído por ele mesmo - e mostrar que a primeira impressão nem sempre é a mais correta. Com muita sutileza, conforme as "camadas" do protagonista são conhecidas, a história tende a mudar. Passamos, então, a reconhecer a delicadeza com que ele trata a jovem, como alguém de fina estirpe, como uma joia muito preciosa - apesar (ou por causa) da origem extremamente humilde desta. Surge, aos poucos, um amor idealizado... e qual amor não o é? O velho projeta seus anseios na jovem, imaginando seu nome, suas reações, suas vontades e alegrias. Mais ainda: torna-se um amor tão belo que contagia todos à sua volta, que nos faz torcer para que dê certo, apesar de toda sua fragilidade e de tão pouco tempo que pareça restar. 
 
Mas, quais as chances de um amor idealizado dar certo, ao confrontar-se com a realidade? O repúdio inicial torna-se compaixão, dó pela figura solitária, incapaz de lutar contra o que julga errado - quando o que imagina volta-se contra ele. Num certo momento, com uma interessante reviravolta, a realidade pode ser mais atrativa que a idealização... mas pode ser um momento tardio.

A "missão" do senhor Márquez é cumprida com louvor. Uma vida ordinária nem sempre é uma vida em vão, sempre que as pequenas realizações do dia a dia são consideradas grandes conquistas. O primeiro julgamento nem sempre é o mais correto... e, observando-se a fundo, ninguém é completamente virtuoso, ninguém é completamente vil.
 


Título Original: Memoria de mis putas tristes
Editora: Record
Autor: Gabriel Garcia Márquez
Ano: 2005
Páginas: 127

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