quinta-feira, 5 de maio de 2011

Amar,verbo intransitivo







Amar é verbo transitivo direto, segundo os livros de gramática. Mas não na obra de Mário de Andrade, que relata a decisão de uma família paulista do século passado: contratar uma “professora” para o primogênito, Carlos. Na verdade, trata-se de uma estrangeira, que recebe a missão de ensinar a arte da sedução e do amor.

Por mais inusitada que essa contratação possa parecer, era perfeitamente plausível na sociedade de então, na qual os pais não desejavam que seus filhos contraíssem doenças ao se relacionarem com prostitutas.O autor tenta reproduzir a realidade daquela época, transmitindo isso até mesmo para as falas das personagens; escrevendo-as de acordo com os coloquialismos brasileiros. Outro detalhe interessante: a obra é classificada como idílio, estílo literário que dá como certa a atração entre dois seres.Mas em "Amar,verbo intransitivo'' não temos total certeza se esse sentimento é compartilhado ou unilateral.

O autor se preocupou, também, de demarcar as diferenças entre a cultura latina e a alemã. A imigrante, chamada "Fräulein'' ( ou Eliza), se adpata depressa, mas estranha os hábitos brasileiro. O nosso povo é descrito como alegre, festeiro, acolhedor; enquanto que os alemães são tidos como sérios, contidos. Instalada na casa da família de Carlos, a professora faz malabarismo para ensinar o que deve ao garoto, que não consegue captar, de pronto, as reais intenções da professora. Isso a faz ter menos paciência ainda com os latinos, embora o sentimento acaba nascendo. Aí, o contato é mais explícito e as noites compartilhadas na cama se tornam freqüentes.

Essa evolução emocional serve para exemplificar o amadurecimento do jovem que, no início, acaba se confundindo e sente-se acuado e instigado ao mesmo tempo. Esse jogo de gato e rato o mantinha numa situação constrangedora, mas que é afastada subitamente. Isso é evidenciado pelo repentino interesse que ele demonstra pela cultura alemã. Seu desempenho nas matérias que Eliza ensina - como piano e línguas - aumenta na mesma proporção do seu interesse por ela.

Mário de Andrade faz um retrato sociológico interessante dos costumes de tempos pretéritos. Por exemplo, o pensamento patriarcal: as mulheres são retratadas como submissas, deixadas à deriva do protagonismo exercido pelo pai e filho. A sexualidade, que é tão explorada pela mídia nos dias atuais, era um tabu, e não podia ser explícita ao ponto de ser vulgar. A alemã deveria conquistar o amor do jovem, seduzi-lo de forma quase sutil (mas não ingênua) e não estar totalmente disponível para seu afeto.

O final do caso é traumático para Carlos, propositalmente, que ainda tem de suportar um discurso do pai, sobre os riscos da gravidez e casamento forçado. Todavia, esse choque faz parte do seu amadurecimento. Em algum ponto do futuro, o menino vai superar o fim do relacionamento.

Na verdade, há muitos outros aspectos interessantes a serem explorados na leitura, que, no raso, é uma história de amor fofinha e dramática. Porém com muitas questões sociais e filosóficas embutidas, que fazem o leitor refletir. Em nenhum momento o autor facilita e, em muitas passagens, deixa que o intérprete complete o pensamento.

Nome: Amar,verbo intransitivo*

Autor: Mário de Andrade

Editora: Itatiaia

Número de páginas: 155


*Existem várias edições desse livro, com capas diferentes

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