sábado, 19 de fevereiro de 2011

Crônica de uma morte anunciada



"Nunca houve morte mais anunciada. Os gêmeos Vicário passaram pelo depósito do chiqueiro, onde guardavam os instrumentos de sacrifício, e escolheram as duas facas melhores."

 Extremamente angustiante.
O título já diz o que vai acontecer. Vítima, assassinos e motivos são conhecidos. Praticamente todos, no pequeno povoado, sabiam da intenção de matar Santiago Nasar... e, ainda assim, nada foi feito.

Gabriel Garcia Márquez apresenta um jogo de gato e rato, em que a vítima é a única que não sabe o que está para acontecer. Enquanto a história é "desconstruída", mostrada sob o ponto de vista de várias testemunhas, fica claro que os assassinos fizeram de tudo para ser impedidos de cometer o crime - mas encontravam-se obrigados moralmente a seguir adiante. Anunciaram a quem quisesse ouvir, e muitos ouviram. Alguns, não deram atenção, alguns não acreditaram, imaginaram que deter os gêmeos homicidas seria trabalho de outras pessoas e por aí vai...

A própria inevitabilidade dos fatos gera uma apreensão, durante toda a narrativa. Para reparar a honra de sua família, o único caminho para Pedro e Pablo é a vingança. Reconhecidamente "boas pessoas", esperam, a todo momento, que alguém possa impedi-los. Declaram, a quem pergunta e a qualquer um que possa ouvir, suas intenções. Mas, os avisos chegam tarde demais a Santiago.

Sem apelar para muito sangue derramado - com um distanciamento jornalístico, até -, duas cenas merecem destaque: a autópsia, conduzida de forma negligente, que termina por estraçalhar ainda mais a vítima, já bastante maltratada pelas lâminas de seus assassinos e a própria morte, vista e revista, recontada em horror crescente por diversas testemunhas. 

Ao final, fica a sensação de uma fatalidade. Presos às amarras de seu destino, nada poderia ser feito para mudar os fatos da morte anunciada.


Editora: Record
Autor: Gabriel Garcia Márquez
Ano: 1981
Páginas: 157

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