terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Coisas Frágeis 2



Bem... eis a segunda parte da coletânea de contos e poemas de Neil Gaiman.
Honestamente, posso dizer que não compreendi muito bem a decisão da editora de dividir a obra em dois volumes (o próprio Gaiman também não entendeu, pelo que andei lendo por aí).  Um volume único, conforme concebido pelo autor, seria bem mais forte...

A divisão significa que os livros são fracos, individualmente? Não, de forma alguma. Gaiman é dono de uma imaginação fantástica, criador de toda uma mitologia moderna, na série em quadrinhos Sandman (qualquer dia, comento por aqui). Seu talento é o bastante para suportar a divisão. O que fica prejudicado é o equilíbrio, entre contos e poemas, além do tamanho dos dois livros - este segundo tem um número bem menor de páginas que o primeiro Coisas Frágeis.

Parando de reclamar, posso afirmar que existem passagens espetaculares no livro. "Os outros" é um conto curto, somente quatro páginas, mas impactante - conseguiu me deixar de olhos arregalados e soltar um palavrão, ao ler a última frase. Ah, foi um elogio.

"Quem alimenta e quem come" é assustador como um pesadelo (e, segundo o autor, realmente nasceu de um sonho macabro), deixando uma sensação estranha. Pode fazer você olhar por sobre o ombro, pra ver se existe algo logo atrás. Nenhuma boa ação fica impune. "O dia dos namorados de Arlequim" é sublime, emocionante e lembra que, afinal, o show deve continuar.

Os poemas acabam sofrendo um pouco, na tradução. Seja a métrica ou em alguma eventual rima, têm sua musicalidade prejudicada, a maioria das vezes, embora a idéia seja mantida. Assim, posso destacar que "Inventando Aladim" é genial, em sua missão de contar histórias sobre histórias, assim como faltam-me elogios para "O dia em que os discos voadores chegaram" - que reproduzo abaixo, pedindo perdão ao grande Neil Gaiman e à Conrad Editora.



O DIA EM QUE OS DISCOS VOADORES CHEGARAM

Naquele dia, os discos voadores pousaram. Centenas deles, dourados,
Silenciosos, descendo do céu como grandes flocos de neve,
E o povo da Terra ficou
    olhando enquanto desciam,
Esperando, boquiabertos, para saber o que nos esperava dentro deles
E nenhum de nós sabendo se estaríamos aqui amanhã
Mas você nem notou porque

Aquele dia, o dia em que os discos voadores chegaram, por uma coincidência,
Foi o dia em que os túmulos devolveram seus mortos
E os zumbis surgiram da terra macia
ou irromperam, cambaios e de olhos baços, irrefreáveis,
Vindo até nós, os vivos, e nós gritamos e corremos,
Mas você não notou nada disso porque

O dia dos discos, que também foi o dia dos zumbis, foi também
o Ragnarök, e as telas de televisão nos mostraram
um navio feito das unhas de homens mortos, uma serpente, um lobo,
Todos maiores do que a mente podia conceber,
   e o câmera não conseguia
Se afastar o suficiente, e então os Deuses surgiram
Mas você não os viu chegando porque

No dia dos discos-zumbis-deuses-em-guerra
   as comportas cederam
E cada um de nós foi engolido por gênios e espíritos
Oferecendo-nos desejos, maravilhas e eternidades
E charme e esperteza e
   corações valentes e potes de ouro
Enquanto gigantes funga-fungavam por toda
   a terra, e abelhas assassinas,
Mas você nem fazia idéia disso porque

Naquele dia, o dia dos discos dia dos zumbis
Dia das fadas e do Ragnarök, o
   dia em que vieram os grandes ventos
E nevascas, e as cidades se transformaram em cristal, o dia
Em que todas as plantas morreram, os plásticos se dissolveram, o dia
Em que os computadores se rebelaram, as telas nos dizendo
   que iríamos obedecer, o dia em que
Os anjos, ébrios e confusos, saíram trôpegos dos bares,
E todos os sinos de Londres tocaram, o dia
Em que os animais nos falaram em sírio, o dia do Yeti,
Das capas flutuantes e da chegada
   da Máquina do Tempo,
Você não notou nada disso porque
estava sentada no seu quarto, sem fazer nada,
nem lendo, nem mesmo isso, só
olhando para o telefone,
imaginando se eu iria ligar.



Editora: Conrad
Autor: Neil Gaiman
Ano: 2010
Páginas: 166

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